21 de dezembro de 2009

Ringo!

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Sempre gostei muito do Ringo. Na ordem, gosto, depois, de John, George e Paul. Ontem, assistindo a um especial da Multishow, mantive a impressão de sempre sobre ele. Ficou bastante visível o quanto Ringo era o descontraído, o conciliador, o gente boa.

Ringo passa a idéia e a firmeza de ser o baterista da maior banda de rock do mundo, mas com ar de quem não se importa muito com isso. Gosto de cara assim. George, desde o início, parecia não se importar muito com quem era também, mas não tanto quanto ele. John era centrado demais. Paul sempre me pareceu o único que, desde sempre, soube quem é, ou o que eles eram, e talvez por isso é o que menos me encanta.

São só impressões, é claro. Mas gosto de imaginá-los assim: in the adult world of the fame, Ringo as the most childish of them. Pensar diferente é perder um pouco do encanto. É achar Ringo inocente demais, quando, na verdade, ele era um cara consciente de que o mundo todo é feito de papel. Ou papéis. E o seu sempre foi, tão somente, movimentar as baquetas. Pra que mais, porém, se o fazia na maior das bandas?

20 de dezembro de 2009

De Sartre

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Os covardes são os que se encobrem sob as normas.

18 de dezembro de 2009

Daqui pra frente

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Dezembro corre e o natal se aproxima. Época demasiada estranha pra mim. Fico nostálgico e apreensivo ao mesmo tempo. Pois, embora eu seja daqueles que tenta não ter saudade nem ansiedade, mas viver o dia de hoje, é inevitável nessa época não olhar para trás, ver o que ficou, e tentar ver lá na frente, o que será.

2009 ainda não acabou, mas posso dizer que foi um ano bom. Principalmente porque me sinto mais jovem do que no ano passado, o que é ótimo.

Em meio ao corre quotidiano (é isso mesmo, escrevo com que-ú), fiquei refletindo sobre os últimos anos. E concluí que 2005 foi muito bom e 2006 terrível. Sei que fiquei bem mais velho de um ano para o outro. Envelheci também em 2007, embora este tenha sido um ano melhor que o anterior, só que fiquei gordo, pesado e ranzinza. De corpo e alma. Tive, decerto, um ótimo 2008, quando voltei a ser, por dentro e por fora, quem sempre fui. E um 2009 rejuvenescedor. Ratificador de minhas dúvidas e certezas. Um ano pra guardar feliz na memória.

Espero ficar ainda mais novo no ano que vem. Quero chegar logo, e de novo, aos 18. Comprar pôster de minha banda favorita, provar coisas que me serão novas, andar mais, e mais descalço, conhecer outros lugares. Quero ser cada vez mais amador e irreverente. Quem sabe, voltar a me preocupar com cravos e espinhas.

Parece promessas de fim de ano, mas, asseguro, não é.

E tudo, certamente, com a certeza de que ainda será melhor do que foi, afinal, terei mais experiência e, ao mesmo tempo, menos medo. Quando se é jovem, nunca se tem. E por não ter, se tem tudo.

15 de dezembro de 2009

Belleville e GLM

Les Triplettes de Belleville, de Sylvain Chomet, e "Descendo a Serra", dos Engenheiros do Hawaii, juntos, em montagem disponível no YouTube.

Muito bom!

9 de dezembro de 2009

Pessoas

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O sujeito compra uma blusa nova, pois as suas já estão pela hora da morte. É uma blusa simples, básica, cuja estampa, singela, traz uma roldana e uma logomarca. Como é convidado para um jantar, a veste pela primeira vez, calça um All Star e uma calça jeans. Arruma o cabelo e vai.

Ao chegar, senta-se na mesa com outras cinco pessoas. E nota, inevitavelmente, que cada uma representa um estereótipo diferente da sociabilidade humana. Cumprimenta-as educadamente e a seu modo, nem cético nem ditirâmbico, e diz a si mesmo que o mundo é facilmente dividido em cinco categorias.

No meio do jantar, isso fica evidentemente claro para ele. As pessoas comem, umas mais rápido, outras nem tanto, e expressam, sem mesmo querer e de forma diferente, seus desejos, sabedoria e ignorância.

Cada uma carrega nos modos seu estereótipo, conversando, rindo e comendo a galinha morta. Falam de coisas vivas, porém, porque é absolutamente indelicado falar de coisas tristes durante um jantar. Uma faz piadas. Outra comenta que trocou de igreja. Uma terceira diz que o marido mudou de emprego.

A primeira, sentada logo a sua frente, nem sequer nota sua blusa nova. Por qualquer motivo indescritível, isso fica bem claro para ele, e por isso é a que mais ganha seu respeito. Ao seu lado, o sujeito percebe uma jovem senhora, que o nota com a blusa, mas nada expressa. Ele sorri e não faz questão nenhuma de dividir com ela o restante da coca-cola sobre a mesa.

Há uma terceira, que representa, é claro, a terceira categoria de pessoas. Ela nota sua blusa depois de certo tempo e simpaticamente exclama: puxa, que bonita! Sua voz incorpora a simpatia que transborda e o faz ficar um pouco sem jeito. Mas, diante de tantas falas atravessadas, ele embarca num assunto qualquer e a conversa rapidamente muda de foco.

Mas volta, porque uma quarta pessoa, sem resistir à tentação, o pergunta: onde você a comprou?

O sujeito se alinha na cadeira e tenta não responder. Pensa que, talvez, tenha sido uma pergunta qualquer, como todas as outras, embora saiba, no fundo, que a pergunta é mais maculada do que parece.

Esta quarta pessoa quase o faz se arrepender de ter ido ao jantar, quando, subitamente, uma quinta, a da quinta categoria, a mesma que ele tanto evita, não se segura e faz a pergunta que desde o início estava querendo fazer:

- Você pagou quanto?

O sujeito fica, obviamente, constrangido. Sabe que dependendo da sua resposta ela irá calcular o valor de seu salário e seu poder de compra, sua ascensão financeira. Sem conseguir disfarçar seu receio, responde: 60 reais.

A primeira nem dá bola e continua a comer a galinha. A segunda e a terceira pensam, juntas, que ele fez uma boa compra. Já a quarta pensa o contrário, pois boa compra é camisa acima de 100 reais. A quinta fica orgulhosa de ter conseguido comprar, na semana passada, uma que custava 3 vezes mais.

O sujeito termina o jantar e sai de cena, torcendo para conseguir, da próxima vez, manter-se o mais longe possível da pessoa que representa, honrosamente, a quinta categoria.

8 de dezembro de 2009

Fluxo

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Cachorros correm sob uma forte chuva. Um empresário refaz suas contas e tenta salvar o mês. Um dono de bar vê no filho um jogador de futebol. A dona de casa, que casou-se com um príncipe, vê a vida perder o encanto. Um peão disfarça na cachaça do dia o quente que à noite lhe falta.

Um adolescente conta o salário, que mal dá para o gás e a compra das fraudas do bebê, razão maior para tanta luta e suor da esposa, que aumenta a renda com produtos da Natura. Um lojista limpa a vitrine. Doces meninas desfilam seus desejos juvenis.

Um moço trabalha das sete as cinco, come ligeiro, toma rápido seu banho e corre para o ônibus, à caça de um diploma. O dia foi corrido, mas a hora de maior correria ainda não chegou.

Um a um, cai: o artista que sabe muito e não tem platéia, a platéia que muito quer e nada tem, a mulher que aos 40 procura uma companhia, a garçonete que sonhava em ser atriz, a atriz que aos 40 procura um papel.

A chuva cessa e o sol ameaça sair. De canto de olho, vê a fila do banco que anda pouco. E a do pronto-socorro que não anda. O cigarro que, ainda aceso, briga com o tempo. As poças d’água que revelam mau recape. Os pássaros que sobrevoam casas, padarias, supermercados. As bancas que vendem os jornais do dia. Os jornais de ontem que embrulham os peixes de hoje. O dinheiro que troca de mãos.

Uma moeda cai, a senhora que a derrubou não nota e um rapaz gentil lhe avisa. Outro se lamenta e o acha pouco esperto. Camisas de futebol circulam entre barracas de feira. Homens de negócio se fecham numa sala e discutem variação cambial.

Posto no blog. Você pára um pouco e lê. Tudo o mais segue. Os cachorros comemoram o sol.

4 de dezembro de 2009

Narciso

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Uma flor bonita e solitária, que nasce na beira dos rios e tem uma vida bastante efêmera, é conhecida como Narcisa. Colorida, ela se destaca da mata ao redor, exuberante, chamando toda a atenção para si.

Seu nome é referência à mitologia grega, de onde vem a história de Narciso, um homem extremamente bonito que se apaixona por sua própria imagem refletida na água. Enamorado por si mesmo, no entanto, ele se afoga no rio, o que expressa a idéia de que amar demais a si próprio é um risco preponderantemente letal.

O culto à imagem é antigo e não parece estar no fim. Pelo contrário: está intrínseco na pós-modernidade. Quanto mais belo, melhor, embora o signo da beleza não seja, para todos, o mesmo. Ao que parece, buscar a si mesmo é buscar um encaixe no ideal de beleza que mais lhe agrada. É “estar com os seus”.

Desde criança: quem gosta de futebol, sonha em ser jogador, quem vê graça em entregar cartas, prefere ser carteiro. E assim por diante.

Afinal, se conviver é, antes de tudo, uma troca de experiências, boas e ruins, fazer o melhor pra si implica necessariamente em mostrar-se. Mas se é assim, só é possível amar a si mesmo amando uma imagem de si mesmo. E o que é cultivar a imagem de si mesmo senão despertar o interesse alheio?

Parece um tanto atroz vendo desta forma: aos olhos do mundo, somos a imagem que fazem e fazemos de nós. Mas não sei, nada disso é crítica ou elogio. São apenas impressões que, convenhamos, poderiam ser particulares. E não são, porque tenho meu lado narcisista também. E um blog para expressá-lo.